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Bendita Dor!
Sob as tuas constrições fortes e ao impositivo do teu
látego, buriladora das arestas e modeladora das formas, transmudas o diamante bruto, que é o espírito imperfeito, em
lucífera estrela na noite das paixões humanas, apontando rumos!
Por todas injunções de santificação que propões aos
calcetas, que outra voz ou diferente metodologia não escutariam, conforme não ouvem as santas e formosas convocações
do amor ao exercício do bem; pelas incontáveis interferências
que operas positivamente no abismo dos seres, concitando-os à elevação e à plenitude; pela presença vigorosa e indispensável com que, operária paciente da evolução, do inadiável progresso, logras; pela insuperável lição de perseverança no
burilamento do ser espiritual, amiga e benfeitora excelente, precursora das virtudes dos anjos, desde que, após a tua
passagem, seguindo-te as pegadas, transitam e se instalam as expressões de eqüidade, de justiça, de beneficência e
amor, de caridade e perdão; pelo que realizas, incompreendida e perseverante, eu te louvo, irmã dos
desafortunados!
Infortunados, sim, aqueles que marcham desavisados,
correndo na alucinada consunção dos ideais de
enobrecimento com que exaurem a vida, aturdidos e extenuados, transformados em verdugos alheios, sicários de si mesmos...
No entanto, aqueles que experimentam o salgado
paladar das lágrimas com resignação; o trucidar das alegrias com
esperança; o impositivo da renúncia com humildade; o extenuar das
ambições com fé no futuro; o desconectar das ilusões materiais com certezas íntimas de venturas espirituais;
os esquecidos pelo olhar do inundo, mas não olvidados por Deus, os vencidos nas refregas ordinárias dos destaques e
das glórias vãs, todavia fortalecidos na fé; os que se viram
e se vèem espezinhados, caminhando em soledade e com os
sentimentos asfixiados sem desanimarem; os que não encontram amigos nem compreensão entre os seus - eis os afortunados do Senhor, porque se repletarão de alegrias e se
refarão após as longas e exaustivas fadigas da evolução.
És tu que inspiras os artistas, facultando que eles
arranquem da pedra bruta a beleza; da argila asquerosa a forma; das tintas esparsas a cor harmônica; das notas separadas a magia sinfônica; das palavras sem sentido o poema,
o discurso, a página rutilante; da soledade o estoicisrao; da
renúncia a abnegação; da confiança a fé...
Elaboras o sacrifício e engrandeces os humildes; plasmas o ideal e vitalizas a ação; incansável operária do amor,
es a segurança dos fracos que se fortalecem e a missionária que os brutos dulcificas.
Que seria do homem sem o teu concurso e do progresso
sem a tua presença?
O gênio, o santo, o artista, o homem de ciência e de
pensamento, o eremita e o dinâmico, o camponês e o citadino todos te conhecem, reprochando-te, às vezes, e, as
vezes, bendizendo-te o nome.
A verdade é que ninguém te ignora ou te dispensa no
afã incessante de produzir, promovendo a vida e a vida dignificando.
Dor-irmã, Dor-educadora, Dor-anônima, Deus te ajude
na indeclinável tarefa de conduzir as criaturas no rumo da Vida Abundante!
do
livro Calvário de Libertação - Victor Hugo/Divaldo Franco
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