Graus na Escola e a Fraternidade

Primeiro, aprendiz; segundo, servidor; por último, discípulo.

por Gitânio Fortes

 

         O título segue grafado com os três substantivos em maiúsculas para que não paire dúvida. A Escola em questão se refere à EAE (Escola de Aprendizes do Evangelho) e a Fraternidade, à FDJ (Fraternidade dos Discípulos de Jesus, não o sentimento). Este texto surgiu de reflexões enriquecidas pela troca de opiniões e vivências junto a amigos das mais diversas Regionais em decorrência das atividades do Grupo de Trabalho sobre a EAE. Visa a desenvolver uma questão muito pertinente. Por que às vezes falta naturalidade a nós, no movimento de Aliança, quando se trata do ingresso na FDJ?

         Uma das possibilidades é que talvez tenhamos laborado em erro com relação a esse assunto ao desvincular a passagem para a Fraternidade do próprio desenvolvimento da Escola. Quem trate entrar na FDJ como evento que se relaciona apenas a obrigações com o término da EAE pode alimentar até menosprezo sobre o que esse ingresso significa. Um equívoco que seria apagado se refletirmos sobre como se procede esse acesso, e se nos referirmos ao exemplo deixado pela Fraternidade Essênia, modelo que a espiritualidade nos trouxe para a implantação de uma escola iniciática para os séculos 20, 21 e vindouros.

         Vamos, primeiro, refletir sobre o acesso à FDJ. No nosso movimento de Aliança, quais as opções oferecidas? Verificamos que o plural não cabe a essa questão. A única porta se abre pela Escola de Aprendizes do Evangelho. Não existe outro caminho para ingressar na FDJ, que surgiu como proposta em 1952, efetivamente implantada em 1954, de reunir, para apoio cristão, os egressos da Escola. No nosso movimento, é considerado integrante da Fraternidade a pessoa que passar pela experiência de aprendiz, de servidor, se submeter ao período probatório ao final das aulas, aceitar uma série de avaliações, e, por fim, participar de uma reunião pública com essa finalidade.

         Isso quer dizer que uma pessoa que passa por tudo isso “é melhor que as outras”? Nada disso. Significa, apenas, que se submeteu a procedimentos que, na seqüência exposta, autenticam o comprometimento interior com o testemunho do Evangelho como referência para o aprimoramento pessoal – tanto no campo do sentimento quanto do conhecimento espiritual. Um servidor pode ter tudo isso. Nesse caso, o discipulado apenas confirma toda essa atividade que favorece o bem universal. Afinal o campo de atuação do discípulo é o mundo.

 

Exemplo Essênio

         Vamos nos remeter, agora, ao exemplo da Fraternidade Essênia, que nos esclarece de forma ímpar. Sabemos, pelos relatos da espiritualidade, que havia os essênios de “vários graus”. Determinada personagem, informa certo livro, era “essênio de primeiro”, outra de “terceiro”, e, assim, até o último grau. O que esses distintos graus designavam? Que, no propósito da iniciação proporcionado pela Fraternidade Essênia, a pessoa em questão havia passado por procedimentos que confirmavam que ela tinha se habilitado a um tipo de experiência.

         Ser um essênio de primeiro grau em nada diminuía a pessoa quando se mencionava um outro integrante da Fraternidade, no último grau. Apenas indicava que faltava à pessoa passar por uma série de experiências. A igualdade, portanto, era latente. Vamos transpor essa situação ao esquema de três graus da Iniciação Espírita.

         O aprendiz, nessa comparação, seria o discípulo de primeiro grau, pessoa comprometida com o aprendizado do Evangelho. No nosso programa de atividades, entrelaçado com o Curso de Médiuns, sabemos que não podemos exigir que o aprendiz aplique passes, por exemplo. Esse é um mister que se abre no grau seguinte. O servidor, o discípulo de segundo grau, é alguém comprometido com o trabalho lastreado no Evangelho. Não podemos exigir que dirija turmas de Escola, pois esta é uma decisão que se toma com muito mais discernimento quando se vivenciou, até o grau seguinte, o de discípulo, toda a gama básica de experiências que a EAE propicia. O discípulo, enfim, é o discípulo de terceiro grau, comprometido com o aprendizado, o trabalho e a vivência do Evangelho. Não se estranha que ele aplique turmas ou dirija turmas. Potencial para isso o grau de discípulo indica. E muito outros mais, dentro da ampla seara que o mundo representa.

         Se passarmos aos alunos, estejam eles no início da Escola ou sejam aprendizes e servidores, a noção de que se ligaram à FDJ desde o primeiro grau e que, com o tempo e dependendo do aproveitamento de cada um – sempre ditado pelo livre arbítrio, podem passar a graus distintos, tornar-se discípulo tende a ser observado como experiência resultante de um processo, e não como um divisor de águas, para alguns tão difícil de superar, que chega a causar receio. Medo infundado, como vemos, ao observarmos o grau de discípulo como conseqüência natural do aluno que optou por ser aprendiz e depois servidor.